Análise: como Omar e Eduardo reconstruíram as próprias carreiras depois do susto de 2018

Em 2018 Omar Aziz (PSD) e Eduardo Braga (MDB) tomaram o maior susto de suas carreiras políticas. Um vento de mudança soprou no Brasil, rejeitando as lideranças tradicionais e colocando no poder, em cargos majoritários, um novo time liderado em nível nacional por Jair Bolsonaro (PL) e no Amazonas por Wilson Lima (União). Tudo apontava para uma derrocada das duas mais importantes lideranças políticas do Estado. Foi preciso muito sangue frio, organização e perseverança para dar a volta por cima, que se materializou em outubro.
Para entender o que aconteceu este ano é preciso navegar pela história.
Braga começou a carreira política em 1982, ao eleger-se vereador. Viu ainda muito jovem a ascensão de Amazonino Mendes ao poder, começando como prefeito indicado por Gilberto Mestrinho no ano seguinte e depois elegendo-se governador em 1986. Nesta época o senador reeleito aproximou-se do “Negão” e passou a ser um de seus homens de confiança, ao lado de Alfredo Nascimento (PL) e do próprio Omar, liderança surgida no movimento estudantil que foi ganhando espaço aos poucos até eleger-se pela primeira vez vereador em 1992.
Foi em 1992, aliás, que Braga chegou pela primeira vez a um cargo majoritário, elegendo-se vice-prefeito na chapa liderada por Amazonino, depois de ser deputado estadual e federal. Os destinos dele e de Omar começavam a se cruzar ali. Dois anos depois o atual senador chegava à Prefeitura de Manaus, com a renúncia do “Negão”, e o atual governador eleito elegia-se deputado estadual.
Em 1996 Braga e Amazonino apoiaram a chapa formada por Alfredo Nascimento e Omar Aziz, que chegou à Prefeitura depois de uma disputa renhida com a surpresa Serafim Corrêa (PSB), atual vice-governador. Depois disso começaram uma série de idas e vindas.
Braga rompeu com o grupo liderado por Amazonino, juntou-se a Serafim e disputou o Governo contra o ex-aliado, que o derrotou. Dois anos depois, no ano 2000, concorreu a prefeito contra Alfredo e Omar. Nova derrota.
Braga e Omar se reencontrariam em 2002, quando Amazonino reconciliou-se com o atual senador reeleito e os indicou para concorrer ao Governo. Iniciava-se ali uma nova relação entre os dois parceiros, que perdurou por 12 anos sem sustos. Eles venceram a eleição, reelegeram-se em 2006 e ganharam de novo em 2010, quando Braga chegou a Senado com votação recorde e o Omar elegeu-se governador.
Os dois voltaram a romper politicamente em 2014, quando Omar decidiu apoiar seu vice, José Melo, para sua sucessão, em eleição contra Braga. A chapa governista venceu, mas três anos depois veio a cassação e uma nova eleição para governador tampão. Novo confronto entre eles, já que o atual governador eleito apoiou Amazonino, que venceu o pleito.
E eis que chega o famigerado ano de 2018 e o susto para Omar e Braga.
Omar candidatou-se a governador com uma coligação forte, apoiada inclusive pelo então prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto. O vento da mudança, entretanto, o atingiu em cheio. Terminou e quarto lugar e viu uma nova geração ascender ao poder, com Wilson Lima derrotando Amazonino e David Almeida, que havia assumido como governador interino quando da cassação de Melo, chegando em terceiro lugar e despontando também como nova liderança.
O vento da mudança também atingiu Braga. Ele disputou a reeleição isolado, sem o apoio de nenhum candidato ao Governo. Viu Plínio Valério (PSDB), candidato de Omar, ser o mais votado e venceu a surpresa Luíz Castro por pouco mais de 23 mil votos. A vitória foi conquistada no interior, aonde conseguiu ser o mais votado, Na capital amargou o quarto lugar.
Omar e Braga saíram de 2018 convictos de que precisavam reconstruir a trajetória. O sentimento foi reforçado em 2020, quando os candidatos apoiados pelos dois – Ricardo Nicolau e Amazonino – não conseguiram chegar à Prefeitura de Manaus, perdendo para David Almeida. Estava claro que a sociedade olhava para as novas lideranças com maior atenção.
A reconstrução começou em 2022. Na tentativa de se reeleger senador, Omar construiu uma forte aliança com prefeitos do interior e aproximou-se da esquerda em nível nacional, obtendo grande visibilidade com a atuação como presidente da CPI da Covid. Venceu, mas por pouco. Viu o novato Coronel Menezes, candidato bolsonarista, sair na frente com boa vantagem em Manaus, mas sucumbir nos demais municípios.
Braga, por sua vez, lançou-se candidato a governador sabendo que tinha poucas chances de vitória, mas fez uma campanha de limpeza da imagem, revigorou-se e acabou chegando ao segundo turno, desbancando o favorito Amazonino. O líder que chancelou os dois no início da carreira de ambos encerrava ali, com uma derrota sentida, sua bem sucedida carreira política. Ficaram órfãos do “pai” político e sabendo que a partir dali precisariam construir um novo grupo dominante.
Para sobreviver, os dois já veteranos políticos precisavam que as novas lideranças não repetissem a aliança de 2022, quando Wilson se reelegeu apoiado por David. As duas máquinas – Prefeitura de Manaus e Governo do Amazonas -, somadas a estruturas menores, mas não menos importantes, como Assembleia Legislativa e as Câmaras Municipais, formavam um bloco poderoso, praticamente impossível de derrotar.
Aí aconteceu um golpe de sorte. Sem a interferência dos veteranos, Wilson e David passaram a se desentender. A aliança de 2022 deixou alguns ressentimentos entre os dois. O governador passou a boicotar o prefeito, não cumprindo vários acordos feitos durante a campanha. Era a chance de Omar e Braga aproveitarem para pavimentar o novo caminho. Optaram por apoiar a candidatura vitoriosa do então prefeito e manter um afastamento do então governador, que eles, experientes que são, percebiam que estava ladeira abaixo.
Imediatamente depois da eleição, percebendo uma chance enorme de sucesso e redenção, Omar e Braga lançaram o movimento “Amazonas Mais Forte” e atraíram David para ele. O prefeito embarcou. Estava cumprida a etapa de isolamento de Wilson.
Omar sabia que David poderia não retribuir o apoio neste ano, mas apostou que a população veria isso como uma traição. Foi o que aconteceu. O prefeito passou todo o ano de 2025 dizendo que apoiaria o senador ao Governo, mas depois construiu o rompimento para se lançar candidato. O movimento não foi bem aceito pela sociedade, que o deixou em quarto lugar na eleição, longe da disputa pelo segundo turno. Também colaborou para isso outro golpe de sorte: o vice-governador Tadeu de Souza, que poderia ser um forte aliado para o prefeito, que o indicara para o cargo, não assumiu a titularidade.
Aliás, o movimento que impediu a posse de Tadeu como governador foi absolutamente inesperado e ocorreu na última hora. Até a noite do dia 4 de abril, prazo final para desincompatibilização de quem pretendia concorrer na eleição, a previsão dos senadores de que Wilson não teria coragem de enfrentar a rejeição para ser candidato a senador parecia se materializar. Mas às 23h daquele dia veio a bomba: o governador e o vice renunciaram e ascendeu ao poder o presidente da Assembleia Legislativa, Roberto Cidade (União).
Omar e Braga passaram a recalcular a rota. Se Wilson não renunciasse, muito provavelmente o Governo ficaria neutro na eleição, o que beneficiaria diretamente o atual governador eleito e indiretamente o senador reeleito. Com a nova configuração era preciso sentir o pulso da população para definir a estratégia. As pesquisas qualitativas indicaram que os eleitores não tinham recebido bem o movimento. Os prefeitos do interior também não embarcaram, em sua grande maioria, na canoa de Cidade.
Braga manteve a tocada, consolidou a candidatura e elegeu-se um dos mais votados proporcionalmente do país. Omar viu os candidatos das duas mais poderosas máquinas sucumbirem pela primeira vez na história e foi para o segundo turno com a novata Maria do Carmo (PL), a candidata bolsonarista da vez. Era o cenário dos sonhos, que se confirmou no último dia 25/10, com uma vitória esmagadora.
De quebra, os dois ainda viram o aliado Lula (PT) se reeleger presidente, numa virada inesperada, e mantiveram a enorme influência política que construíram em Brasília.
Omar e Braga já estiveram juntos em várias ocasiões desde o início da carreira. Quando isso aconteceu, dominaram o cenário político. Quando conflitaram, um dos dois sempre perdeu. Ou os dois. Agora mais maduros, voltaram à ribalta e podem continuar dominando a cena pelo menos na próxima década, se mantiverem a estratégia muito bem sucedida de estar mais perto da população e mais longe das intrigas.




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