A IGNORÂNCIA VOLUNTÁRIA E A POLÍTICA NO AMAZONAS

Aprendi, ao longo da vida, que existe uma diferença enorme entre não saber e não querer saber. A própria origem da palavra ignorância, do latim ignorantia, nos remete à falta de conhecimento. Mas existe também o sentido de ignorar deliberadamente, de fechar os olhos para aquilo que não queremos enxergar. E é justamente nessa diferença que está uma das maiores preocupações do nosso tempo, especialmente quando olhamos para a política.
Eu não considero ignorante aquele que desconhece determinado assunto. Afinal, ninguém sabe tudo. Tenho consciência de que, por mais que estudemos, trabalhemos e acumulemos experiências, sempre haverá algo a aprender. Sócrates já nos ensinava, por meio da máxima que lhe é atribuída, que reconhecer a própria ignorância é o primeiro passo para buscar o conhecimento.
O verdadeiro problema começa quando alguém deixa de procurar a verdade porque ela pode contrariar suas convicções. Quando os fatos estão diante dos olhos, mas a pessoa prefere negá-los. Quando a informação deixa de ser uma oportunidade de aprendizado e passa a ser uma ameaça às próprias certezas.
É a ignorância voluntária. E ela tem consequências graves, principalmente na política.
No Amazonas, vivemos um momento em que precisamos discutir o futuro do nosso estado com seriedade, responsabilidade e coragem. Temos desafios históricos na saúde, na educação, na segurança pública, na infraestrutura e no desenvolvimento econômico. Temos municípios isolados, comunidades que dependem de longas viagens para ter acesso a serviços básicos e uma população que ainda espera que as riquezas da nossa terra se transformem em oportunidades concretas.
Diante dessa realidade, não podemos aceitar que o debate político seja reduzido a paixões partidárias, disputas pessoais ou à defesa incondicional de lideranças.
O Amazonas precisa de cidadãos que pensem, questionem e analisem. Não de pessoas que simplesmente repitam aquilo que seus grupos políticos mandam dizer.
Na política amazonense, como em qualquer lugar, há quem enxergue todos os defeitos dos adversários, mas desenvolva uma impressionante incapacidade de reconhecer os erros dos aliados. A mesma conduta que ontem era considerada inaceitável passa a ser justificada hoje, dependendo de quem a pratica.
Se o adversário comete um erro, exige-se punição imediata. Se o aliado faz a mesma coisa, surgem explicações, justificativas e discursos sobre perseguição política.
Ora, se defendemos a transparência, precisamos defendê-la para todos. Se cobramos honestidade, não podemos escolher quem deve ser honesto. Se exigimos investigação diante de suspeitas, não podemos mudar de opinião conforme o partido, o grupo ou a liderança envolvida.
A verdade não pode ter lado. E o caráter de uma pessoa não pode ser medido pela conveniência política de quem a defende.
A filósofa Hannah Arendt alertou para os perigos de uma sociedade na qual os fatos perdem espaço para narrativas construídas conforme os interesses de quem deseja convencer. Quando a verdade factual passa a ser tratada como mera opinião, perdemos a capacidade de construir um debate público minimamente responsável.
Hoje, com um telefone celular nas mãos, qualquer pessoa pode acessar notícias, documentos, estudos e informações que antes estavam distantes da maioria. Entretanto, ter acesso à informação não significa necessariamente buscar conhecimento.
Muitas vezes, as pessoas escolhem apenas aquilo que confirma suas crenças. Compartilham uma acusação sem verificar sua origem, condenam alguém sem conhecer os fatos e rejeitam uma informação verdadeira simplesmente porque ela contraria o pensamento do grupo ao qual pertencem.
E há algo ainda mais preocupante: a disposição de transformar suspeitas em condenações quando se trata de adversários, mas exigir provas rigorosas, cautela e silêncio absoluto quando o assunto envolve aliados.
Defendo que toda denúncia seja investigada, que toda suspeita seja apurada e que ninguém seja condenado sem o devido processo legal. Isso vale para quem está no poder e para quem está na oposição. O combate à corrupção não pode ser seletivo, assim como a defesa da honra não pode servir de instrumento para impedir investigações legítimas.
Como cidadão e agente público, acredito que a política deve servir às pessoas, não aprisioná-las em disputas ideológicas ou interesses particulares. Precisamos ter maturidade para reconhecer acertos e erros, independentemente de quem os pratique.
O Amazonas é muito maior do que qualquer partido, liderança ou projeto eleitoral. O futuro do nosso estado não pode ficar refém de uma população dividida entre aqueles que são autorizados a criticar e aqueles que são obrigados a defender.
Precisamos aprender a discordar sem perder a capacidade de raciocinar. Precisamos cobrar sem perseguir, defender sem passar pano e reconhecer méritos sem abrir mão do senso crítico.
Não tenho a pretensão de ser dono da verdade. Pelo contrário: acredito que a experiência, o estudo e a convivência com pessoas diferentes nos ensinam justamente a desconfiar de quem acredita ter todas as respostas.
O problema não é desconhecer. O problema é transformar o desconhecimento em certeza absoluta. Todos nós temos algo a aprender. Todos podemos estar equivocados em algum momento. A diferença está na disposição de ouvir, examinar os fatos e mudar de opinião quando a realidade demonstra que estamos errados.
Por isso, deixo uma reflexão para o momento político que o Amazonas atravessa: antes de perguntar de que lado está determinada pessoa, precisamos perguntar se aquilo que ela está dizendo é verdadeiro. Antes de defender uma liderança, precisamos avaliar suas atitudes. Antes de condenar um adversário, precisamos conhecer os fatos.
Porque a democracia não exige que todos pensem da mesma maneira. Exige que sejamos capazes de pensar por nós mesmos.
Não saber é uma condição humana. Não querer saber é uma escolha. E, quando essa escolha passa a orientar a política, quem perde não é apenas o debate público. É a sociedade inteira.
E, no fim das contas, quem mais sofre com essa cegueira voluntária é justamente quem menos pode esperar: o povo do Amazonas.




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